Parte da história de Arapoti se vai com a perda de “Seu Lulo”

27/07/2016 20:240 comments

Arapoti – O falecimento nesta quarta-feira, 27, de Naurolino Carneiro Nunes, aos 94 anos, levou uma parte da história viva de Arapoti junto. Seu Lulo, como era por todos conhecido, recentemente enfrentava problemas de saúde, inerentes a avançada idade, e acabou por descansar neste dia, que amanheceu mais triste em Arapoti. Muitos sentirão falta daquele senhor simpático de baixa estatura, sempre com seu inseparável chapéu, com quem volta e meia esbarravam pelas ruas da cidade.

SAM_1926Seu Lulo esteve envolvido em diversas situações que escreveram a história da cidade, principalmente durante o seu processo de emancipação político-administrativa. Irmão do ex-prefeito Bianor Nunes, ele foi vereador durante a gestão de 1964 a 1969. Era um verdadeiro livro vivo com diversos “causos, estórias e histórias” que ajudaram a formar o município de Arapoti.

Seu corpo está sendo velado na Câmara Municipal. O enterro acontece nesta quinta-feira, 28, no Cemitério Municipal. Abaixo republicamos uma das matérias feitas pela Folha Paranaense em dezembro de 2012, onde Seu Lulo nos contou um pouco da história desta cidade que era tudo na vida dele. Confira:

Arapoti 57 anos: A luta pela emancipação (15/12/2012)

Arapoti – A cidade completa mais um aniversário, porém, desta vez sem grandes celebrações programadas pela Administração Municipal. No dia 18 de dezembro, Arapoti chega a 57 anos de emancipação político-administrativa e o “JD Notícias” foi conversar com um dos personagens centrais dessa emancipação que ainda vive e esbanja vitalidade. Naurolino Carneiro Nunes, popularmente conhecido como “Seu Lulo”, do alto de seus 90 anos, lembra, com a memória fresca de um jovem, a luta pela independência da cidade 57 anos depois. Seu Lulo comenta que foram aproximadamente oito anos de esforços para que Arapoti fosse elevada a categoria de cidade.

Foi no dia 26 de novembro de 1954, através da Lei 253/54, que foi criado o município de Arapoti, que viria a ser instalado em 18 de dezembro de 1955. Mal sabem os atuais habitantes que a decisão de emancipação, segundo Lulo, foi definida por apenas um voto favorável em acirrada votação na Assembleia Legislativa do Paraná. Afinal, muitos interesses estavam em jogo, principalmente políticos, já que até então Arapoti fazia parte do Município de Jaguariaíva. “Foram anos de luta até que o movimento ganhasse corpo e o nosso desejo se concretizasse” disse Seu Lulo.

Seu Lulo é um dos cinco filhos do casal José Nunes de Souza e Maria Rita, que era filha de Georgina e Telêmaco Carneiro de Melo. Georgina, avó de Lulo, era filha de Dona Romana Duarte de Camargo que adquiriu a Fazenda Capão Bonito em 1899 do Coronel Luiz Ferreira de Melo, dando início a povoação do local que futuramente, após a instalação da linha ferroviária e da fábrica de papel, daria lugar a Arapoti. Logo da implantação da Estação Ferroviária, após 1910, cortando a Fazenda Capão Bonito, o povoado ficou conhecido como Cachoerinha o mesmo nome da Estação.

Seu Lulo conta que neste principio Arapoti, antiga Cachoeirinha, não era desenvolvida e que os antigos centros do povoado estavam localizados no Cerrado das Cinzas, que também contava com uma Estação Ferroviária, e na Fábrica de Papel. “Eu nasci em 1922 e ainda jovens fomos morar na fábrica. Lá era maravilhoso, tinha boas escolas, cinema, enfim, tinha tudo o que ainda a Cachoeirinha não tinha. Mas depois de 4 anos morando na fábrica, em 1936, aos 15 anos, voltamos para Arapoti. Foi aí, conversando com meu irmão Bianor, que chegamos a conclusão que se continuasse daquela maneira o povoado não iria se desenvolver. Começamos a pensar na criação de um município” revela.

Até que o sonho da adolescência fosse colocado em prática, alguns anos ainda se passariam. Durante esse tempo, Lulo trabalhou como agente dos Correios. “No final da década de 40, por volta ali de 1948, é que decidimos nos movimentar para desmembrar Arapoti de Jaguariaíva”. No entendimento de Lulo, para isso ser possível, era necessário trabalhar politicamente nos altos escalões do Estado. “Fomos buscar apoio em um político influente da época, o Seu Marins Camargo, de família tradicional da política estadual, homem inteligente e tio do antigo governador Bento Munhoz da Rocha”. Lulo conta que Marins Camargo era cadeirante e membro do antigo Partido da República. Mesmo pertencendo a um partido oposicionista o antigo PTB de Getúlio Vargas, Lulo afirma ter sido bem recebido pelo político. “Fomos eu e o Bianor à Curitiba no escritório do Marins Camargo que no recepcionou muito bem. Lembro que ao relatarmos o nosso anseio, ele prontamente pediu à secretária que trouxesse os arquivos relacionados à Cachoerinha, como limites do povoado e outras informações”.

Após a análise, o político, segundo Lulo, os encaminhou ao seu sobrinho Oscar Lopes Munhoz da Rocha Neto, que era Secretário de Estado do Interior. Seu Lulo conta que em Jaguariaíva existia uma corrente contrária ao desmembramento de Arapoti, ligada principalmente ao antigo PSD. “O prefeito de Jaguariaíva era do PSD, Eduardo Xavier da Silva. Existia gente aqui mesmo de Arapoti, ligada ao partido que não queria a separação. Por isso não foi uma luta fácil. O Moisés Lupion, em campanha pelo Governo pelo PSD, nascido em Jaguariaíva, adotava uma postura política, não assumindo posição clara, embora, no meu entendimento, defendesse a manutenção” disse Seu Lulo.

Mesmo com as dificuldades, Lulo comenta que procuraram o Secretário do Interior que foi também extremamente solícito e recomendou que adotassem alguns procedimentos que viabilizassem a emancipação. “Ele solicitou que fizéssemos um levantamento de habitantes e que marcássemos uma reunião e que o convidassem e ele iria para dar prosseguimento ao desmembramento”. Seu Lulo conta que ao retornar da capital, durante 15 dias saíram contando os habitantes do local. “Saímos numa loucura, contando gente no meio dos matos, correndo de cachorro, enfrentando chuva. Terminamos o levantamento e tinha dado aproximadamente 10 mil habitantes”. Feito o levantamento, marcaram a reunião e enviaram o convite ao Secretário, mas sem nominá-lo. “Não colocamos o nome, porque o Secretário era do PSD e nós, como éramos do PTB, não queríamos fazer o nome do partido deles aqui em nossa região. Foi um erro. Chegou o dia da reunião e o Secretário não apareceu”.

Seu Lulo comenta que achavam que ali estava emperrado o processo. “Tive a ideia de retornarmos a conversar com o Marins Camargo, mas o Bianor achou que talvez eles nos esculachassem por sermos do PTB. Fui sozinho para Curitiba”. Ao chegar novamente da capital, Seu Lulo sofre uma situação constrangedora. “Ao descer do trem, uma faísca voou e queimou minha calça. Tive que sair correndo atrás de um alfaiate” diz aos risos. Depois de resolvido o contratempo, se encontrou com o político que foi sucinto ao afirmar que eles haviam errado ao não colocar o nome do secretário no convite. “Ele recomendou que eu conversasse novamente com ele, mas que nesse momento o Secretario estava lidando com obras de estação de água no litoral, em Guaratuba. O Marins Camargo me indicou um motorista que me levou até Guaratuba. Cheguei lá por volta das 20h”.

Lulo afirma que procurou a casa em que o Secretário estava hospedado e ao bater na porta a família levou um susto. “A esposa dele abriu uma fresta da porta e perguntei pelo marido dela. De repente ele aparece por trás da porta assustado com uma arma na mão (risos). Contei quem eu era e ele se lembrou de mim. Foi buscar o convite que eu havia enviado e pediu para eu achar o nome dele ali. Fiquei constrangido, me desculpei e pedi novamente ajuda para ele”. Lulo diz que nessa época o movimento já havia ganhado força política e que posteriormente entrou na pauta de votação da Assembleia Legislativa.

Ele afirma que a quatro dias da votação que definiria a emancipação foi lembrado por seu tio Emiliano que dentro do projeto não havia a inclusão do Distrito de Calógeras como pertencente a Arapoti. “Corri para elaborar um telegrama ao Presidente da Assembleia, o Sr. Deputado Laerte Munhoz da Rocha Neto. Para a nossa surpresa e sorte, o deputado acatou nosso pedido e fez uma emenda ao projeto incluindo Calógeras”. No dia da votação, Seu Lulo conta que a Assembleia possuía 35 deputados. A discussão e votação acirrada terminou empatada em 16 a 16. “Aí o Presidente da Assembleia tinha que dar o voto de minerva, que definiria o desmembramento e como ele fora o autor da emenda que incluía Calógeras, naturalmente ele teria que votar a favor, o que de fato aconteceu” afirma.

O sonho da juventude de muitos moradores de Arapoti estava realizado. Após a emancipação, segundo Seu Lulo, houve muita “ciumeira” na cidade. “Nós tínhamos o PTB que nos foi tirado e na primeira eleição tivemos que procurar outro partido em cima do laço. Conseguimos nos filiar ao partido do antigo governador de São Paulo Adhemar de Barros. Mesmo assim não conseguimos conquistar o primeiro pleito”. O primeiro prefeito eleito de Arapoti foi o Sr. Rubens Guasque.

Essa e muitas outras histórias sobre Arapoti são contadas por seu Lulo que é um verdadeiro livro vivo. Em reconhecimento pelo seu trabalho pelo município, Seu Lulo foi homenageado no ano passado pela Câmara Municipal que lhe concedeu o título de cidadão honorário. Nada mais justo para quem sempre lutou por essa cidade e hoje pode celebrar 57 anos de vida. Parabéns Seu Lulo! Parabéns Arapoti!