Aniversário do 7×1: Um ano vivendo sob os destroços

08/07/2015 19:070 comments

De positivo daquela tarde amargamente histórica, restou apenas um aspecto: passamos a nos importar mais com a seleção brasileira. Mesmo entre os que há tempos já haviam se desiludido, impera a cobrança, ainda que em forma de corneta, o que é sempre positivo. Afinal, estava se encerrando uma era iniciada em 1950, um recorte histórico que, qual um filme de Martin Scorsese, guarda todas as reviravoltas típicas das maiores ascensões que antecedem as mais doloridas quedas. Um ciclo que começou em Ghiggia terminava no melancólico segundo tempo daquele jogo do Mineirão. O problema é que ainda não sabemos que rumo tomar neste cenário pós-apocalipse. Em Touro Indomável, o boxeador Jake LaMotta, gordo e humilhado, vivendo de shows miseráveis em boates decadentes, arrebenta seu cinturão para vendê-lo por uns trocados. Mas nem uma casa de PENHOR podemos procurar, já que faz 30 anos que a Jules Rimet deve ter sido transformada em dentes de ouro.

Tantas vezes já foi dito, mas o Maracanazo acentuou a descrença brasileira em si mesmo, comportamento imortalizado no “complexo de vira-latas” exposto por Nelson Rodrigues, que era disseminado na imprensa daqueles anos. Fato é que naquela época a tragédia trouxe ensinamentos importantes. Para 1958, por exemplo, o Brasil teve sua melhor preparação em Copas até então: uma comissão andou pela Suécia com meses de antecedência para escolher hotéis, uma equipe multidisciplinar viajou com a delegação, que respeitava rígidas normas disciplinares. Eram medidas inéditas e revolucionárias. E vencer aquela Copa do Mundo foi o estopim para o período de glória de seleção, este período que nos recusamos a admitir que acabou.

Tentava-se cobrir as rachaduras com massa corrida, mas eis que um dia a casa caiu. Há um ano, a contusão de Neymar era o ALVARÁ para a derrota – comissão, jogadores e dirigentes estavam absolvidos. Depois que o atacante se lesionou, tudo era permitido ao Brasil, exceto o que de fato aconteceu. E, analisando por este viés, nada melhor poderia ter acontecido. Assim, nossa decadência ficou exposta aos holofotes do mundo inteiro, uma chaga hiperdocumentada, qual um palhaço decadente no centro do picadeiro, a maquiagem derretendo pelo calor dos flashes.

Encerrava-se, assim, uma epopeia de 64 anos, iniciada quando um derrotado Brasil começou a se preparar para vencer sua primeira Copa do Mundo. Um cenário de terra arrasada sempre traz consigo uma oportunidade de renascimento, mas o problema é que um ano depois ainda não sabemos o que fazer com o saldo deste ciclo que se fecha. A casa caiu, mas em vez de começar a reerguê-la tijolo por tijolo estamos tentando sobreviver nos arrastando em meio aos escombros. O perigo maior é justamente se acostumar a viver debaixo dos destroços.

Fonte: Globo Esporte

Canadá quer se transformar no Brasil do futuro e para isso usa o Pan-2015

05/07/2015 16:060 comments

Em Montreal para a inauguração de um centro esportivo, o presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Tomas Bach, discursava sobre as mudanças no processo de escolha da sede da Olimpíada quando interrompeu sua fala para se dirigir ao presidente do Comitê Olímpico Canadense, Marcel Aubut: “Pode começar a pensar nisso (concorrer aos Jogos)”. Toda a visita do poderoso dirigente olímpico ao Canadá foi permeada por conversas sobre a futura candidatura do país. E o Pan-2015 em Toronto tornou-se um degrau para essa postulação.

Na prática, o Canadá quer repetir o Brasil que usou a competição continental que sediou no Rio, em 2007, como preparação para a campanha vitoriosa para levar a Olimpíada de 2016. Por isso, o desempenho da organização do evento que começa nesta sexta-feira tornou-se crucial para o país. Inicialmente, a candidatura olímpica deve ser apenas para 2028, mas há a possibilidade de antecipá-la para 2024.

Durante sua estadia em Toronto, Bach foi recebido pelo prefeito de Toronto, John Tory, que fez várias perguntas sobre o processo de escolha e quais os requisitos necessários para se candidatar. Quem participou da reunião ficou com a impressão de que ele tinha intenção de postular já para 2024. Inicialmente, essa hipótese tinha sido descartada quando a população reclamou dos custos dos Pan-2015.

“Vemos grande entusiasmo em Toronto. Posso encorajar a comunidade de Toronto a participar. Um Pan bem-sucedido pode ajudar”, afirmou o Thomas Bach. “Pode ser um degrau para pegar o grande evento olímpico”, completou Aubut.

O Pan até agora não encantou os cidadãos do Toronto por sofrer com a resistência da população, que tem reclamado do trânsito. A competição se tornou a mais cara da história do continente ao ver seus gastos triplicarem. Além disso, há problemas de logística e segurança nos dias prévios ao evento, mas será necessário o seu início para verificar se o campeonato será bem-sucedido.

O que os canadenses têm feito até agora é agradar Bach de todas as maneiras. Em Montreal, reconstituíram na universidade local a atmosfera dos Jogos de 1976 em que o cartola alemão, então atleta, ganhou sua medalha de ouro na esgrima. Até um pódio foi montado para recebê-lo. Ele se emocionou e chorou em discurso.

Fora a Olimpíada, o Canadá também mira outros eventos. Já recebeu a Copa do Mundo feminina, em 2015, o que poderia abrir uma brecha na Fifa para candidatura à Copa. Em discurso, o prefeito de Montreal, Denis Coderre, também deixou claro seu interesse em atrair mais eventos esportivos após o Mundial das mulheres: “Quem sabe um time de beisebol profissional?”, disse, para delírio da plateia.

Montreal tem uma experiência esportiva que não deu certo com a Olimpíada de 1976. O evento gerou uma dívida que demorou anos para ser paga. Ainda assim, o Canadá recebeu, depois disso, dois Jogos de Inverno, e chega ao seu segundo Pan em 16 anos. Dependendo do que acontecer a partir desta sexta-feira, volta a mirar alto de novo.

Via UOL