quinta-feira, setembro 23, 2021
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Jaguariaíva perde uma extraordinária professora: Dona Chiquinha

FRANCISCA MACCAGNANI CARAZZAI (“Dona Chiquinha”)

Francisca Maccagnani Carazzai, ou simplesmente “Dona Chiquinha” como é carinhosamente chamada por todos, nasceu na capital do Estado do Paraná, Curitiba em 6 de julho de 1929, filha de Ângelo Maccagnani Carazzai e Estelita da Rocha Maccagnani. Seu pai fôra Padre na juventude, inclusive aqui em Jaguariaíva, onde abandonara o sacerdócio mais tarde para contrair matrimônio.

Dona Chiquinha homenageada no Dia da Mulher, em 2005, na Casa da Cultura

Desde os cinco meses de idade, Francisca foi criada por seus avós maternos, onde sendo muito “peralta”, já aos três anos de idade foi enviada para escola em Piraquara, onde realizou o seu curso primário, tendo como seu primeiro professor o renomeado mestre Ignácio Alves de Souza Filho, personalidade também estimada em Jaguariaíva. Nesse período da sua vida escolar, a menina Francisca acabou conhecendo o interventor Manoel Ribas, que naquela época, por não serem muitas, visitava todas as escolas do Estado.

Com o falecimento de sua avó materna, veio para cidade de Palmeira, onde já residia seus pais e irmãos. Nesta promissora cidade frequentou o curso complementar com duração de dois anos, o que na época e ocasião, equivalia à Escola Normal. Ainda em Palmeira, também cursou o ginásio.

Em 1950 faleceu sua mãe e em março de 1952, por seu pai ser professor de latim e tal cadeira da citada disciplina estar vaga em Jaguariaíva, o mesmo foi transferido para lecionar nesta cidade, vindo Francisca junto com o pai, onde de pronto cursou a Escola Normal Regional e a Escola Normal Paula Gomes. E no ano seguinte, em 1953 começou a lecionar latim no Colégio Estadual Rodrigues Alves (CERA) em substituição ao pai, que ora havia se acidentado e quebrado uma das pernas.

No ano seguinte em 1954, Francisca foi nomeada Professora Regionalista, vindo lecionar também no então Grupo Escolar Izabel Branco (hoje Escola Municipal), onde em 1956 terminando o curso da Escola Normal Paula Gomes foi elevada de nível.

Já em 1963 fez um curso de férias muito produtivo no Colégio Estadual do Paraná, que na época equivalia a uma faculdade. Neste ínterim ainda cursou o Científico no CERA. Adiante por meio de concurso público do Estado do Paraná, obteve o Primeiro Padrão, onde lecionava a disciplina de Português e paralelamente dava aulas as quais eram chamadas complementares. No exercício do magistério no Colégio Estadual Rodrigues Alves (CERA), lecionou para o curso ginasial, científico e escola normal, mais tarde primeiro e segundo graus. Ainda no CERA, uma escola que denominou no período de seu trabalho como “risonha e franca”, pela fluente atividade de seus professores e a participação maciça de seus alunos, foi uma das fundadoras e ativistas, ao lado de grandes nomes como Márcio Araújo Motta, Maria José Carneiro Motta (“Dona Mimi”), Antonio Lopez Fernandez, Elzita Jorge Cunha, Renato Ferreira de Mello e outros do Grupo de Teatro Amador Escolar, representando personagens até hoje lembrados com saudade por alunos e professores, tais como o Palhaço Pimentão que interpretado por Dona Chiquinha tornou-se um verdadeiro ícone do Grupo de Teatro.

Em 1965 por seu profissionalismo na arte do educar, foi nomeada Inspetora Regional de Ensino de Jaguariaíva, onde trabalhava ao lado de Inspetores das cidades de Arapoti, Sengés, Piraí do Sul e São José da Boa Vista. Foi no período de sua delegação como Inspetora, que foram fundadas, construídas e inauguradas em Jaguariaíva, as Escolas Estaduais (hoje Colégios Estaduais) Olavo Bilac, Nilo Peçanha e Padre José de Anchieta, escolas estas que foram denominadas pela própria Dona Chiquinha, por resolução da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Paraná. Exerceu com brilhantismo o cargo de Inspetora por cerca de dez anos, onde saiu em 1975 para cuidar de seu pai, que ora estava enfermo, vindo o mesmo a falecer em 1977.

Porém no meio da Inspetora, em 1971 ingressou na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde cursou a faculdade de Letras: Português-Inglês, que lhe custou bastante sacrifício, onde mesmo com o acúmulo do estudo com o trabalho escolar e os cuidados dedicados ao seu pai, acabou concluindo o curso e diplomou-se em 1974.

Dona Chiquinha, durante o período em que exerceu o referido cargo na Inspetoria, também desempenhou, na prática, com todos os louvores e encargos as funções de Inspetora Municipal de Ensino, a partir da gestão do prefeito Silas Gerson Ayres e foi graças a ela, com seu dinamismo, competência, discernimento e verdadeiro altruísmo, que o ensino do meio rural melhorou sensivelmente, a ponto de passar a nivelar-se ao da cidade. Foram, na época, contratadas pelo município mais de vinte professoras normalistas, em boa parte, vindas dos municípios de Piraí do Sul e Itararé, para atuar no Sertão e em todo interior.

Para tanto, Dona Chiquinha ofereceu toda assistência material, pedagógica e humana às referidas professoras, hospedando-as em sua residência a todo tempo, oferecendo-lhes gratuitamente e sem ônus para o município, alimentação e pouso. Se há alguém, em toda a existência de Jaguariaíva, que definitivamente retirou de si para dar ao município e se houve com espírito de abnegação, na verdadeira extensão do termo, a esse alguém inclua-se Dona Chiquinha, pois, inclusive, nunca recebeu “um vintém” dos cofres da prefeitura, sob qualquer título, ou seja, quer pagamento por serviços prestados ou ressarcimento de despesas com as professoras que acolheu com tanto primor em sua casa.

Visitava com frequência as escolas rurais, mesmo com as dificuldades de locomoção daquela época, acessos difíceis, sem estradas, com tempo bom ou de chuva, de jipe ou até mesmo a pé.

Raras pessoas se disporiam a tanto, hoje então, quase ninguém. Porém a mesma atenção e desempenho Dona Chiquinha ofereceu ao Ensino Rural, nas gestões dos prefeitos sucessores ao Silas, os prefeitos Mário Fonseca e Doutor João Batista da Cruz. Os três prefeitos sempre reconheceram e enalteceram os inestimáveis serviços prestados por Dona Chiquinha, conceito com o qual, sem dúvida, a população e a municipalidade jaguariaivense compartilha.

Em 1977 Dona Chiquinha obteve também através de Concurso, o Segundo Padrão, continuando lotada no Colégio Estadual Rodrigues Alves (CERA). Em dezembro de 1983 afastou-se do Primeiro Padrão e em março de 1985 do Segundo Padrão, assim aposentando-se, mas nunca deixando de educar, atendendo com muito carinho todos aqueles que a procurassem para obter ensinamentos.

Em 10 de outubro de 2002, juntamente com a saudosa professora Durvacyra Pedroso de Azevedo, recebeu do Rotary Club de Jaguariaíva um Diploma de Reconhecimento pelos seus relevantes serviços prestados e por sua conduta profissional e pessoal em nossa comunidade.

Já em 6 de setembro de 2011 nas festividades alusivas à Semana da Pátria do município de Jaguariaíva por iniciativa do presidente da comissão organizadora de tal solenidade, professor Luiz Antonio de Souza, Dona Chiquinha recebeu uma homenagem pública pela sua brilhante trajetória profissional.

De fato, este é apenas um resumo da vida pessoal e profissional da professora Francisca Maccagnani Carazzai, nossa estimada “Dona Chiquinha”, uma jaguariaivense por adoção, que em mais de 65 anos em Jaguariaíva,  contribuiu grandemente para a história, educação e cultura, para o bem e o progresso do município.

Em 2015, Chiquinha mudou-se para Curitiba, mas sempre guardava em seu coração a vontade de voltar, pois amava Jaguariaíva e sentia muita saudade da cidade, das pessoas e de sua casa, onde sempre viveu, desde que aqui chegou em 1952. Sempre lúcida, simpática e alegre, com dificuldades somente para se locomover, morava sozinha, amparada por familiares e amigos que a visitavam quase que diariamente. Veio a falecer no dia 19 de abril de 2018, no Hospital Evangélico, em Curitiba, aos 92 anos, vítima de um AVC.

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