CRÔNICA – O Risco | Folha Paranaense
CRÔNICA – O Risco
07/10/2020 às 09:50

                Outro dia, ao chegar em casa, percebi um risco que começava no farol e ia até a lanterna traseira do meu carro. Por um momento fiquei admirando o risco, irado até, imaginando quem poderia ter feito, por que teria feito, o que motivou tal criatura a cometer esse ato?

                                Sei que o cérebro humano é especialmente programado para vivenciar emoções, mas também, para aflorar a pior face do ser, a violência de toda sorte, inclusive o do comportamento antissocial. Fiquei imaginando o rosto da pessoa no momento em que pegou a “ferramenta do crime”. Se tinha o intuito de agredir-me emocionalmente, ou nem sequer imaginou, no momento, quem era o proprietário do automóvel: riscou por riscar, pelo puro prazer de correr perigo, (adrenalina mesmo!).  

                               Concordo que um pouco de adrenalina não faz mal a ninguém, mas por que extravasá-la exatamente no meu carro? Com tantos que estavam estacionados no mesmo lugar? (Não que eu goste dessa “filosofia”: “se o mal não for para mim para o outro pode”, mas foi o que pensei no momento!). Porém, também sei: “o vândalo fica feliz com o prejuízo alheio”. Na sua mente vil paira uma névoa, ou antes, uma fumaça, como lhe é mais apropriado, que vibra e faz sonhar e planejar mais riscos; atitudes  mais escabrosas para deixar, quem quer que seja no prejuízo, somente em troca de seu riso e do reconhecimento daqueles que compartilham dos mesmos ideais macabros.

                                Por outro lado, uma pessoa que “ataca” o patrimônio alheio, pela mais pura falta de motivos, só pode ser uma pessoa frustrada (seja da idade que for!). Quando mais velha pior, mais doente. Vive-se unicamente de violência e do prazer de destruir qualquer tipo de objeto que pertença ao outro. A propriedade alheia é foco da inveja que mantém todos seus neurônios ativos e maquinando o próximo ataque.

                Dá pra sentir, pelos sulcos provocados, que a falta de perspectiva de se ter um veículo é tal, que é muito mais fácil destruir o do próximo. A falta de coragem de ir à luta, assim como eu fui para conseguir um “carrinho”, é tamanha, que é muito mais cômodo atacar o alheio. O ódio é de tamanha magnitude que me faz ter calafrios quando imagino o olhar sádico do vândalo enquanto corria por sobre a lata, o prego, a pedra ou qualquer outro objeto.

                               Com esse tipo de gente não se brinca! É perigosa. Ardilosa. Sente um prazer tão sádico, que beira a loucura (mataria, qualquer ser humano, como se estivesse abatendo um rato). Não mede consequências de seus atos. É a cultura da produção em massa do comportamento agressivo colocada em prática: eu não posso ter, então destruo o do outro, sem culpa, sem pena e sem dó, (fácil, não?), sem o mínimo senso que se está causando prejuízo a alguém.

                               Do ponto de vista de educador, sei que apesar de considerar pessoas que agem assim são seres pensantes,  protagonistas do seu jeito de ser, da sua história, também sei, que estão construindo para si conhecimentos tão nefastos, que mais cedo ou mais tarde acabarão colhendo o que estão plantando: conflito, ódio, baixa autoestima, isolamento, depressão e, por fim, a fuga no álcool, nas drogas, o fim da dignidade humana.

                               Para encerrar: o que pode gerar de conversa um simples risco em um carro velho?  

                               O vândalo se deleita com o prejuízo alheio. Na sua mente vil paira uma névoa, ou antes, uma fumaça, como lhe é mais apropriado, que inebria e faz sonhar e planejar mais incêndios e vidraças estilhaçadas e ações cada vez mais ousadas para deixar a autoridade pública numa saia justa tremenda, já que em nome de alguma manifestação é que coloca em prática seu ritual de quebrar e atear fogo. Tudo para o seu próprio deleite. Sabe, inclusive, que alguém limpará a sujeira e que no lugar do veículo destruído outro será colocado e que a cidade não cessará de existir por causa dele e de seu apetite voraz.

                               Aparentemente não é filho ou pai, ou marido, ou portador de RG. É somente um ser autômato que não se alimenta de arroz com feijão. Nutre-se unicamente de violência e do prazer de destruir qualquer tipo de objeto que pertença ao outro. Ser de propriedade alheia é mesmo condição básica para que as proteínas do mal atinjam rapidamente sua corrente sanguínea e lhe concedam mais energia para continuar seu importante trabalho de seguir na contramão da evolução.

(Davrison de Abreu Anselmo – Professor e Radialista em Ibaiti-Pr)

                   davrison@gmail.com

Deixe seu comentário