quinta-feira, julho 29, 2021
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Sant´Ana: entre a fé e as gostosuras

Atravessando a Praça Floriano Peixoto em Ponta Grossa, por volta do meio dia, de repente ouço conhecida cantoria (ou acho que ouço!) vinda da imponente Catedral de Sant´Ana. Arrepios me percorrem.  Vozes de um tempo distante: memória afetiva recheada de fé, odores e sabores. Busco abrigo em um banco da praça, pois as pernas tremem. A musicalidade preenche e abafa o burburinho dos carros, o falatório dos transeuntes. A catedral de vitrais coloridos vai-se desvanecendo ao sol do meio dia. Diante de mim surge a antiga catedral, teimosa em deixar resíduos da sua exuberante arquitetura. As pesadas portas abrem-se e escancaram o louvor: “Ó Sant´Ana aceitai os louvores / desse povo devoto e gentil.”  E bem ali, a alguns degraus do meu flashback, vejo e ouço (ou imagino ver e ouvir!) os fervorosos cantores do Coro Vozes Madrigal, regidos por Gabriel de Paula Machado. Rivalizando-se com a sonoridade divina do órgão de tubos. Emocionado, me pego cantando baixinho pra não chamar a atenção dos passantes.

Aos idos quinze, dezesseis anos me transporto. Festivamente.  Contava meses e dias para a chegada de julho: festa da Padroeira. Novena. Quermesse. Feriado da santa. Aquele frenesi de gente indo e vindo. Então me preencho de cheiros e sabores. Tudo bem ali. Na mesma praça: barraquinhas de gostosuras, bandas musicais, foguetório. Então me calo e me arrepio (de medo) diante dos atuais dias incertos, sem cheiros e sabores ao alcance dos sentidos.

Feriado de Sant´Ana. Pela manhã, os católicos acorriam às ruas centrais, por onde desfilava alegórica procissão: o belíssimo andor e a imagem da mãe e sua filha. Um primor de encher olhos e coração. À frente vinham as freiras, as noviças, em seus hábitos engomados, caminhando em fileiras. Depois dezenas de padres com suas túnicas branquíssimas. À frente do andor a banda musical, as crianças vestidas de anjos, o bispo Dom Geraldo Pellanda. Por último, o povo de Deus acompanhando cantos e rezas em seus rádios de pilha. De repente me vi cercado de fiéis.

Sentado naquele banco me revejo saudoso (e feliz!). Tanta coisa mudou. As décadas (invasivas e nada sutis!) transformaram a cara da cidade e das pessoas. Ali parado minh´alma reverbera o canto divino, ao odor do incenso, ao som do órgão de tubos, ao canto dos animados coralistas: “Salve Sant´Ana Senhora! Sois padroeira bondosa / desta cidade formosa / que vossas bênçãos implora!” Amém!

Texto de autoria de Alfredo Mourão de Andrade, aposentado do Serviço Público Municipal de Ponta Grossa.

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